terça-feira, 22 de setembro de 2015

trocas de tráfego

Trocas de tráfego

Demi Getschko
07 Setembro 2015 | 07h 01
Recentemente, o conjunto de pontos de troca de tráfego (PTTs) operados pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) atingiu um pico de 1 Terabit/s (um tráfego mundialmente reconhecido como volumoso e que continua a crescer em bom ritmo). Mas o que vem a ser um PTT e para que serve?
Quando trechos de rede acadêmica começaram a se estabelecer, a maneira de construí-los era alugar, às operadoras, canais de telecomunicação com capacidade suficiente e, ligando-os a equipamentos de roteamento, configurar uma espinha-dorsal (“backbone”) da rede. Nela, as sub-redes e os computadores participantes se conectariam. Note-se que protocolo usado para transporte de conteúdo nesses canais era o definido pela rede em questão: se fosse um pedaço da internet, por exemplo, o conteúdo seria transportado por TCP/IP. As operadoras alugavam “canais limpos” com a capacidade de banda solicitada e ficava por conta da rede como eles seriam “preenchidos”. Quando o TCP/IP consolidou-se como protocolo padrão, as operadoras passaram a vender conexão já com TCP/IP incluído, ou seja, a oferecer acesso ao próprio “backbone”.
Pela interconexão com as demais operadoras, haveria acesso à internet como um todo. O cliente agora não precisava mais “ver” a topologia da internet: bastava contratar a banda necessária e deixar o resto por conta da operadora.
Em grandes cidades, entretanto, parte da banda contratada serve para “cruzar a rua” para ir até a empresas localizada “ao lado”. Ou seja, a mesma banda que podia levar até um serviço na Mongólia também seria usada para ligar a um vizinho. E como o vizinho podia estar se valendo de outro operador, esse “atravessar a rua” poderia significar uma ida a Miami, trocar de operadora por lá, e fazer o caminho de volta. A criação de pontos metropolitanos de interconexão racionaliza isso: as conexões locais podem ser resolvidas localmente, com os interessados trocando tráfego diretamente no PTT metropolitano. E tudo que não estiver ligado diretamente ao PTT continua acessível através da conexão genérica à internet, ou seja, o PTT em si nem é crítico, nem introduz riscos de conectividade.
O PTT comporta-se, portanto, como uma “praça” em que se resolve a troca de pacotes locais da internet, a custo muito baixo e com alta eficiência. Ele elimina o “turismo” desnecessário de pacotes pelo mundo, melhora o tempo de trânsito e permite contacto ágil e simples entre provedores e consumidores. Por não se localizar dentro de um ponto de presença local de uma operadora de telecomunicações, é neutro em relação à estrutura.
Numa linguagem mais técnica, o PTT interliga sub-redes (Sistemas Autônomos) que queiram trocar tráfego local de internet e, com isso, aumenta a eficiência, a resiliência e a estabilidade da rede. O PTT atrai os provedores de comércio eletrônico, de conteúdos e de entretenimento nas mais variadas formas, desde texto até “streaming” de música ou vídeo. Com isso, o provedor pode estar muito mais perto do consumidor, melhorando a qualidade percebida do serviço. Não é à toa que o pico de uso do PTT hoje ocorra às 22 horas, quando a maioria de nós está em casa, usando serviços de entretenimento via internet.
DEMI GETSCHKO É CONSELHEIRO DO COMITÊ GESTOR DA INTERNET; ESCREVE QUINZENALMENTE

INternet do futuro passa pelo Atlântico

Internet do futuro passa pelo Atlântico

Novos cabos submarinos devem ligar Brasil diretamente à Europa, Estados Unidos e África aumentando a velocidade de dados

Pouca gente sabe, mas quando um usuário da internet acessa uma rede social ou assiste a um vídeo, os "pacotes" de informação que circulam entre seu computador e os servidores em outros continentes passam, em milésimos de segundo, por longos cabos de fibra óptica instalados no fundo dos oceanos.
Se no passado quase toda comunicação entre os continentes era feita por meio de satélites, atualmente 99% do tráfego da internet, linhas telefônicas e sinais de TV passam pelos cabos submarinos - são eles que permitem que a internet seja o que é. A infraestrutura de todo esse sistema está em vias de ser substituída e modernizada.
Na expectativa de um crescimento exponencial do tráfego da internet brasileira nos próximos anos, grupos privados estão investindo alto na construção de uma nova infraestrutura de cabos submarinos para conectar o País diretamente a outros continentes com velocidade sem precedentes.
Clique na imagem abaixo para entender como funcionará a nova infraestrutura de cabos:
Atualmente, a conexão entre o Brasil e o mundo é feita por seis cabos. A maior parte percorre um caminho intrincado, com pontos de parada em países da América do Sul e do Caribe - o que aumenta a latência da internet - até chegar aos Estados Unidos, que concentra os principais pontos de tráfego de dados do mundo. Além disso, quase todos os cabos atuais são do início da década passada e estão chegando ao limite da vida útil.
O próximo cabo a entrar em operação, no fim de 2016, será o Seabras-1, que fará a primeira ligação direta entre Santos e Nova York. Neste momento, o novo cabo fabricado pela francesa Alcatel-Lucent está sendo instalado no fundo do mar - em uma operação espetacular - pela empresa americana Seaborn, ao longo de 10,5 mil quilômetros. O cabo terá uma ramificação em Fortaleza e, a partir de Santos, subirá a Serra do Mar diretamente até São Paulo, promovendo uma conexão sem escalas entre os dois dos principais centros financeiros das Américas.
Segundo o chefe de operações da Seaborn, Andy Bax, enquanto cada um dos cabos em uso atualmente têm em média capacidade de circulação de 4 Tbps (terabits por segundo), o Seaborn-1 terá capacidade de 60 Tbps. Segundo Bax, o investimento do projeto, financiado por fundos internacionais, é de US$ 500 milhões. A expectativa é que o retorno seja bilionário.
"O crescimento da demanda de conectividade no Brasil é gigantesco. O sistema de cabos atual não dará conta. Além disso, os cabos atuais perdem conectividade por fazer múltiplas paradas. Estimamos que a ligação direta entre São Paulo e Nova York reduza os custos de serviços de operação de duas a três vezes", disse Bax.
Segundo ele, outra vantagem dos novos cabos é que, ao contrário dos atuais, eles não pertencerão às próprias operadoras de telecomunicações e internet. "Esperamos que a instalação do Seaborn-1 e de outros cabos independentes promova uma concorrência entre novos operadores, revolucionando a internet brasileira ao reduzir o preço para o consumidor final."
Redução dos custos. Há várias outras iniciativas além do cabo da Seaborn. O Google lidera a construção do cabo Monet, que até 2017 ligará Santos diretamente a Boca Ratón, na Flórida. A Angola Cables construirá o cabo SACS, previsto para 2016, que fará conexão direta entre Fortaleza e Luanda, em Angola. A SimplCom construirá o cabo SAEx, que ligará Fortaleza à África do Sul a partir de 2017. E a Telebrás, em uma joint venture com a espanhola IslaLink Submarine Cables, construirá o cabo EulaLink, conectando Fortaleza ao sul de Portugal em 2017.
Para Ari Lopes, analista da Ovum América Latina, uma consultoria internacional de Tecnologia da Informação, as empresas que investiram nos novos cabos terão tanta capacidade instalada que venderão o excedente no mercado, reduzindo os custos de tráfego no futuro.
"O investimento, no entanto, terá retorno a longo prazo - talvez décadas - porque ainda não temos uma grande restrição de oferta em cabos submarinos no Brasil", disse Lopes. Para Bax, no entanto, o retorno dos investimentos está garantido por um crescimento exponencial da demanda de conectividade no mundo. Segundo eles, dois fatores impulsionam essa demanda: o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) - que prevê a conexão de todas as cidades brasileiras em banda larga até 2018 - e novos usos e serviços cada vez mais populares na internet.
"Há um conjunto de novas 'ondas' da internet. A TV a cabo, por exemplo, vai perdendo sentido à medida que se popularizam os conteúdos de vídeo online. Cada vez mais informação é armazenada em 'nuvens' por empresas e no mercado financeiro", disse Wagner Rapchan, executivo da Netell, fornecedora de fibras ópticas que fez parceria com a Seaborn no cabo.
Diretor de Banda Larga do Ministério das Comunicações, responsável pelo PNBL, Artur Coimbra afirma que os novos cabos deverão derrubar os preços do tráfego de internet e suprir os cabos atuais. "Um único cabo submarino a ser implantado hoje é capaz de entregar uma capacidade de, no mínimo, seis vezes a capacidade somada de todos os cabos já instalados", afirmou Coimbra.
De acordo com Ronald Valladão, gerente de projeto da Telebrás, o mercado internacional de tráfego de internet cresce quase 40% ao ano. Na América Latina e na África as taxas de crescimento são maiores - 45%. "As projeções indicam que a cada dois anos o tráfego na internet dobra." Segundo ele, o investimento inicial no EulaLink é de US$ 185 milhões. A Telebrás financiará 35% do valor e o resto ficará a cargo de acionistas.