Como saber se uma notícia é falsa
Especialistas dão dicas de como detectar a procedência de uma informação que está circulando na internet.
Por Clara Velasco, G1
Todas as notícias e informações que você compartilha nas suas redes
sociais são verdadeiras? As notícias falsas só circulam porque muita
gente as passa em diante. Com um pouco de atenção, porém, é possível
escapar das armadilhas que circulam pela web.
Neste 2 de abril, o primeiro Dia Internacional da Checagem de Fatos - comemorado apenas um dia depois do Dia da Mentira -, o G1
lista dicas dadas por especialistas para detectar a procedência de uma
notícia e questões que, se não provam que a informação é falsa, pelo
menos ajudam a ligar o "desconfiômetro" das chamadas fake news (notícias
falsas). Veja abaixo.
1 - Você conhece o site da notícia?
Você conhece aquele site? Sabe que tem uma equipe responsável por ele?
Segundo material produzido pelo Instituto Poynter, entidade americana
que analisa e estuda a imprensa, quando você acessa um site, a primeira
coisa que deve fazer é verificar onde está e quem está por trás das
páginas que está lendo. Se não conseguir encontrar nenhuma informação
sobre o autor ou nenhuma seção que explique o que é o site, é melhor
ficar atento.
"É importante prestar atenção na página para saber que tipo de site é
aquele e pensar se já leu coisas sobre aquela publicação", diz Fabio
Goveia, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e
Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo. "Às
vezes, são sites que espelham o jornalismo, copiam nome e tipo de página
de sites grandes, como o próprio G1, mas é um jornalismo fake news, um jornalismo de paródia, e a pessoa compartilha como se fosse verdade."
É o caso também de sites de humor, que usam a estética e a linguagem
jornalísticas para brincar com as informações. O problema é que um
leitor não atento pode acreditar e compartilhar o humor como sendo
verdade.
Pablo Ortellado, do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o
Acesso a Informação da Universidade de São Paulo (USP), afirma ainda que
deve-se olhar para o histórico do veículo com uma perspectiva "não
política". "Numa situação polarizada, as pessoas acreditam em qualquer
coisa que confirme sua opinião."
2 - Dá pra saber de quando é a notícia?
Geralmente, notícias falsas não indicam quando o fato narrado aconteceu
- se nesta semana, se neste ano, se há dez anos. Por isso, é muito
fácil que boatos antigos voltem a circular nas redes de tempos em
tempos. Como não há indicação de tempo, aquela “notícia” pode sempre ser
atual. Por isso, veja se a notícia é datada de alguma forma. Caso o
texto tenha uma data de publicação, se atente a ela - pode ser que
aquele link seja antigo.
Muitas vezes, uma notícia de anos antes viraliza em um momento
específico. Foi o que aconteceu há uns anos com uma notícia verdadeira
sobre o cancelamento do Enem. Um link de uma reportagem sobre o assunto
foi difundido às vésperas do Enem de 2012, provocando pânico nos
candidatos. Só que o link era de uma notícia de 2009,
quando o Enem foi adiado para todos os inscritos após a notícia do
furto de provas. O caso foi parar na Polícia Federal, e o Ministério da
Educação convocou uma coletiva para desmentir o cancelamento.
3 - A notícia é assinada? Por quem?
Não, você não precisa conhecer todos os jornalista do mundo pelo nome.
Mas, segundo especialistas, a maioria das notícias falsas compartilhadas
nas redes sociais não tem um autor identificado - principalmente quando
são apenas textos repassados por Whatsapp e não estão hospedados em
sites.
Em outros casos, os textos são “assinados” por personalidades
conhecidas, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ou o
jornalista Arnaldo Jabor. Nesses casos, é importante ligar o
“desconfiômetro”: é muito fácil escrever uma mensagem de cunho político,
colocar que o autor é alguém conhecido e repassar no Whatsapp. Caso
aquela mensagem seja verdadeira, uma rápida busca online pode levar
rapidamente a sites repercutindo as informações. Caso a busca não traga
nada claro, tudo indica que é mentira.
4 - Você consegue identificar a fonte das informações?
Pode até ser que a notícia esteja datada e assinada, mas as informações
do texto são creditadas a alguém? "Esse texto está citando um
documento? Ele cita uma fonte? Fez uma entrevista com um dono de
empresa, com um porta-voz do governo? Ou é apenas uma afirmação forte,
sem nenhum embasamento? É apenas a voz de quem está relatando aquela
notícia?", elenca Ortellado.
Caso seja difícil identificar a fonte das informações, você já tem
outro sinal amarelo de que aquela notícia pode ser falsa. É fácil
inventar um texto e não ter que deixar claro para o seu leitor de onde
ele veio. Isso possibilita que as pessoas escrevam qualquer coisa, já
que não precisam provar nada para ninguém.
Em muitos casos, porém, órgãos e nomes bastante conhecidos são usados
para dar credibilidade à informação. Correntes de e-mail e do WhatsApp
circulam frequentemente com a assinatura completa de um médico, um
funcionário público ou outro especialista. Se a suposta fonte de
informação é um órgão público, basta encontrar o site oficial e checar
as últimas notícias – a maior parte deles mantém assessorias de imprensa
dedicadas a publicar esse tipo de comunicado.
Também é possível fazer uma busca online do nome da pessoa que assina a
informação, o que pode levar a desmentidos. Caso isso não aconteça,
será possível comprovar, com a busca, se a pessoa efetivamente existe,
se trabalha na empresa envolvida, entre outras informações.
5 - A notícia é “bombástica”?
Aqui entra a questão de bom senso: se uma notícia parecer, à primeira
vista, “inacreditável”, talvez seja justamente porque ela não existe.
Segundo especialistas, em geral, quem tenta enganar os leitores escolhe
exagerar ou inventar eventos absurdos para mexer com a emoção do
público, principalmente quando as opiniões estão polarizadas.
A tendência é que as pessoas aceitem como verdade até informações
flagrantemente falsas porque elas estão de acordo com o que acreditam.
Por isso, segundo Ortellado, vale pensar duas vezes e dar uma busca na
internet para ver se a mesma notícia está sendo repercutida em outros
lugares.
Um exemplo dado por ele é a morte de Teori Zavascki, ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) que cuidava dos casos da Operação Lava
Jato e que sofreu um acidente de avião em Paraty (RJ). Pouco depois do
acidente, os boatos já começaram a circular. “Se alguém tivesse
descoberto realmente que um sargento da Aeronáutica tinha dado
instruções falsas para o avião do Teori, isso estaria em todos os
veículos”, explica Ortellado. “Se não está, é um forte indício de que
essa notícia não foi verificada: ou ela é falsa, ou é um boato.”
Também é comum que notícias falsas usem recursos para parecer ainda
mais "bombásticas", como colocar o título em caixa alta. Segundo o
Instituto Poynter, esse recurso costuma ser usado por caça-cliques - ou
seja, pessoas que tentam chamar a atenção para conseguir cliques do
leitor.
Dica bônus: Eu penso, logo compartilho
Por fim, mas não menos importante, os especialistas destacam a
importância de exercitar o senso crítico e tentar deixar de lado a
ansiedade que o rápido compartilhamento das notícias nas redes sociais
traz. "As pessoas tendem a compartilhar essas informações como se
estivessem fazendo uma coisa muito boa, protegendo seus familiares e
seus amigos. E nesse afã de querer compartilhar logo, de ser o primeiro a
passar aquela notícia, a pessoa acaba dando mais munição para quem está
por trás [dessas publicações falsas]", diz Goveia.
Segundo ele, ironicamente, essa cultura da velocidade vem do próprio
jornalismo , pois a forma atual de repassar informações do setor é tão
objetiva que as pessoas buscam sempre essa objetividade e essa rapidez.
"Assim como no jornalismo, agora toda a sociedade tem essa relação com a
notícia, de que é quente, rápida. Além disso, o breaking news é
mais simples, então as pessoas conseguem reproduzir com facilidade. Por
isso, tanto para o jornalismo como para o leitor, essa preocupação de
observar outros elementos além daqueles que costuma ter na mão, no
celular, tem que estar presente."
O senso crítico também vale para o teor das notícias. Em uma época em
que as opiniões políticas estão tão polarizadas, é mais fácil cair nas
notícias falsas sobre políticos que circulam pela internet, já que as
pessoas já estão predispostas a acreditar em certas coisas.
O Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso a Informação da
USP mediu esse fenômeno aplicando questionários durante grandes
manifestações a favor e contra o governo de Dilma Rousseff, na Avenida
Paulista. Segundo Ortellado, entre as afirmações falsas que foram
tomadas como verdadeira por manifestantes anti-Dilma estão a denúncia
mentirosa de que a ex-presidente trouxe haitianos ao Brasil para que
eles votassem nela. Já entre as afirmações falsas com as quais a maior
parte dos manifestantes pró-Dilma concordaram está a denúncia de que os
protestos de junho foram articulados pelos Estados Unidos para tomar o
pré-sal brasileiro.
"As pessoas acabam vivendo em uma bolha, isoladas em um grupo que só
fala de um partido A ou de um partido B. Isso acaba impedindo que elas
tenham acesso a informações contraditórias. Como a pessoa já está
predisposta a ter uma opinião, a corrente [de informações falsas]
funciona como um reforço do que ela acredita. Por isso, acaba circulando
mais forte", diz Goveia.
Colaboraram Ana Carolina Moreno, Helton Simões Gomes, Ricardo Gallo e Shin Suzuki
‘É ou não é?’, seção de fact-checking (checagem de fatos) do G1,
tem como objetivo conferir os discursos de políticos e outras
personalidades públicas e atestar a veracidade de notícias e informações
espalhadas pelas redes sociais e pela web. Sugestões podem ser enviadas
pelo VC no G1, pelo Fale Conosco
ou pelo Whatsapp/Viber, no telefone (11) 94200-4444, com a hashtag
#eounaoe (caso prefira, a hashtag pode ser enviada logo após a mensagem
também!).
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